Did you see that?

meteorologia: frio e nublado
pecado da gula: pastel de feira e bomba de chocolate (exagero!!!)
teor alcoolico: 2 smirnoff ice
audio: nerdcast #227
video: as horas

Inception, direção Christopher Nolan

Não fui assistir ao filme apenas pelo burburinho ao redor dele. Lógico que me fez ficar curiosa, mas certamente não foi o principal motivo. A razão principal foi a direção de Christopher Nolan. Desde Memento que admiro o trabalho desse diretor. Seus filmes saem do lugar comum e sempre, mesmo em Batman Begins, há algo além da estória. Sempre há o que ler nas entrelinhas, nos detalhes. O uso da metalinguagem é algo que torna seus filmes sempre muito interessantes de assistir. Além disso, a montagem e a fotografia sempre esmerada são um diferencial a mais.

Já havia lido algumas resenhas sobre o filme. Tentei não ler nenhuma crítica, nenhuma análise ou teoria. Fui ao cinema, apenas sabendo que a temática era sobre sonhos e que a direção era de Nolan, o que garantia um mínimo de qualidade (desde que não fosse tão chato quanto Insomnia). Antes mesmo de ir assistir, eu já tinha uma crítica. Mas tive de retroceder depois de consultar um dicionário, pois desta vez, o título nacional chegou bem próximo do sentido do título original, mesmo não sendo a tradução literal.

Tecnicamente o filme é impecável. Toda a fotografia, enquadramentos de câmera, efeitos especiais, tudo tem sua razão de ser. Nada está ali apenas por estar. Aliás, a utilização de efeitos especiais ultimamente tem deixado muito a desejar justamente por esse motivo. Muitos deles não são essenciais à estória e muitas vezes não são necessários, estando ali apenas para mostrar o que é possível fazer com CGI. No filme de Nolan, não. A cena da cidade se dobrando é de tirar o fôlego, simplesmente sensacional, serve à trama e não tem nada de gratuita. E todos os efeitos estão perfeitamente integrados à narrativa, inclusive muitos deles foram feitos à moda antiga, utilizando cabos e cenários articulados ao invés de computação gráfica. Além de dar veracidade às cenas, evita que o espectador se distraia da estória enquanto se maravilha com os efeitos. O próprio Nolan contrariou os executivos da Warner ao se recusar a fazer o filme em 3D, alegando justamente isso. Até o recurso da câmera lenta – que muitos diretores utilizam indiscriminadamente – é encaixado de modo a fazer total sentido. Minha única ressalva é quanto às cenas de ação. Achei algumas um pouco exageradas. Em alguns momentos tinha a sensação de estar assistindo a um filme de James Bond. Mas nada que me fizesse desabonar o filme. Aliás, em certo ponto do 4o. nível de sonho, um dos personagens faz exatamente a mesma pergunta que me fazia no momento, “Couldn’t someone have dreamt of a goddamn bitch, huh?” Nessas cenas eu tive a impressão de estar num filme de 007, com algumas sequências totalmente descartáveis.

Mais um destaque importante é a trilha sonora. Utilizando como base uma canção de Edith Piaf, “Non, je ne regrette rien” – elemento importante na trama – Hans Zimmer constrói uma trilha que envolve o espectador. Fantástico e genial como sempre. Pena que a canção não esteja no cd da trilha sonora original. Senti falta. Detalhe interessante é que a atriz que interpreta a cantora no filme “Piaf”, Marillion Cotillard, está no elenco, como a esposa do personagem principal.

Aproveitando a deixa, o elenco está muito bem. Nenhuma atuação excepcional, mas o grupo está bastante entrosado, resultando num conjunto bem coeso e harmônico. Interpretações competentes, mixando atores da nova e velha guarda (veja-se Michael Caine, presente em quase todos os filmes de Nolan), dando a dinâmica necessária ao desenrolar da estória.

Sobre a estória em si, é difícil discorrer sem spoilers. Pelo questionamento da realidade, assemelha-se bastante à Matrix. Estamos dormindo ou acordados? O que estamos vivendo é sonho ou realidade? E pela temática onírica, criação e manipulação dos sonhos, remete a Total recall. Mas enquanto eu estava assistindo, lembrei várias vezes de The prestige.Em vários momentos, pensei no personagem de Michael Caine explicando o princípio básico de um truque de magia: “There are three parts to every magic trick … 1) The Pledge 2) The Turn, and 3) The Prestige!” E é interessante que Inception segue exatamente essa estrutura. A apresentação do mecanismo dos sonhos e sua invasão, qual é a “profissão” de Don Cobb (DiCaprio), qual o objetivo da equipe de Cobb e a preparação para atingi-lo. A invasão em si, englobando todos os níveis de sonho necessários à tarefa. E por fim, o questionamento deixado em aberto no final do filme.

Não é um filme tão acessível ou de fácil consumo como um Karate Kid ou [Rec]2, citando alguns dos filmes em cartaz. Mas, diferentemente do que ouvi algumas pessoas comentando, não achei o filme confuso, nem a estória e muito menos a sequência dos fatos. A montagem do filme pode dar esta impressão, devido ao paralelismo da ação, mas não há nada de não-linear nele. Se há razão para assisti-lo mais de uma vez, certamente não é para entender a sucessão de eventos. Mas sim para, já conhecendo o enredo, prestar (ainda mais) atenção nos detalhes, nas pistas espalhadas por toda a estória.

Eu, inclusive, saí do cinema, não só com vontade de vê-lo novamente, mas também de rever todos os filmes de Nolan. Pois é impressionante como ele domina a arte a que se dedica, além de ser um ótimo contador de estórias. Embalou um típico filme de assalto com uma roupagem sci-fi e fez o público sair do cinema discutindo sobre os limites da realidade. Apesar de não ser esse o foco de Nolan no filme (e por isso ele é tão bom no que faz). A ‘magia’ do filme, a prestidigitação em si, é que enquanto estamos prestando atenção em toda essa dinâmica entre sonho e realidade, Nolan passa 150min. nos falando sobre a arte de fazer filmes. É metalinguagem o tempo todo, algumas vezes nas palavras de Cobb outras pela boca de Ariadne.

Como disse no outro post, o filme não é genial. As idéias do roteiro certamente não são originais nem extremamente criativas. Mas a excelência está na forma como essas idéias foram encaixadas, exibidas e vendidas para o espectador. Esse é o grande mérito do filme. No meu entender, cinema é acima de tudo entretenimento. Se a diversão vier acompanhada do “fazer pensar”, o público sai do cinema cativado e motivado a conversar sobre o filme e fazer a famosa propaganda boca-a-boca. E é este o caso de Inception.

Vale conferir. Eu recomendo.

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