Persona

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Persona, direção Ingmar Bergman

Mea culpa. Admito que, antes de “Persona”, nunca havia assistido a um filme inteiro de Bergman, apenas alguns trechos de “O sétimo selo”, “Sonata de outono” e “Fanny e Alexander”. Mesmo já tendo lido a respeito dele, críticas sempre elogiosas de seus filmes, por alguma conjunção de fatores eu ainda não havia visto uma obra sua na totalidade. Mas sou da opinião que nunca é tarde para nos redimirmos. E, aproveitando a dica do Pablo Villaça (@pablovillaca) durante o curso de “Linguagem e crítica cinematográficas”, assisti “Persona”.

Não sei se foi a melhor escolha para iniciar no universo de Bergman. Talvez devesse ter pedido indicações a quem já assistira alguns de seus filmes. De qualquer modo, não me arrependi. E já estou à procura dos demais para assistir. Sabia, de antemão, pelas minhas leituras, que a temática de seus filmes costuma girar em torno de questões existenciais. Ou seja, nada de blockbusters cheios de ação, perseguições e tiroteios. Filmes para ver e refletir a respeito.

Apesar do estranhamento inicial causado pela introdução do filme, gostei bastante dele. Não é um filme fácil, nem de assistir, nem de contar para os amigos. Seria simplificar demais a obra, dizer que se trata tão somente da convivência de uma atriz com problemas emocionais e sua enfermeira. O filme pode ter vários adjetivos, mas simplista certamente não é um deles. Um pouco mais detalhadamente, a estória é a seguinte: Elizabeth Vogler (Liv Ullmann) é uma atriz que emudece, aparentemente sem explicação, durante a apresentação de um espetáculo teatral. Alma (Bibi Andersson) é a enfermeira encarregada dos cuidados relativos à atriz. A médica (Margaretha Krook) a cargo do tratamento de Vogler, oferece-lhe sua própria casa de praia, indicando uma estadia lá a fim de dar continuidade ao tratamento. Isoladas, Alma e Vogler desenvolvem uma relação emocionalmente intensa.

A sequência inicial é uma sucessão de imagens não relacionadas entre si (ao menos no meu entender), mas mesmo assim, bastante impressionante. Não consegui apreender o sentido que o diretor quis dar àquelas curtas cenas. Talvez sua intenção fosse instigar o questionamento do espectador e fazê-lo refletir sobre o significado de cada uma delas: um cinematógrafo, uma crucificação, um pênis ereto, um carneiro sendo sacrificado, alguns cortes de filme mudo. A cena seguinte, de um garoto que acorda num hospital (creio eu) cercado de corpos e que acaricia a projeção de imagens do rosto de Alma e Vogler, a mim serviu de aviso para o que viria a seguir. A fusão das imagens dá a entender que as personagens deixam de ser indivíduos independentes ao (con)fundir suas personalidades. Personalidades moldadas a partir do que a sociedade espera de cada uma delas.

(Um parênteses: depois desse início meio non-sense para mim, tive receio de que o filme fosse uma daquelas obras experimentais em que apenas o roteirista e o diretor conseguem ver algum sentido. Felizmente, apesar de bastante denso e repleto de significados tácitos, foi um dos filmes mais interessantes e instigantes a que assisti nos últimos tempos.)

Persona em latim significa máscara. Era a máscara utilizada pelos atores no teatro grego. O título parece remeter diretamente à personagem de Ullman. Mas no decorrer do filme, percebe-se que se aplica a Alma também. Ambas representam, cada qual a seu modo. Para Vogler, vestir a máscara e representar é sua profissão e, possivelmente, por ter-se cansado disso advém a crise emocional que a emudece (Há uma cena, anterior à ida das duas para a casa na praia, em que a médica discorre exatamente sobre essa hipótese). Para Alma, mesmo encarando a profissão de enfermeira como uma vocação, não deixa de vestir a máscara que a função exige – sempre solícita, cuidadosa, boa ouvinte. Duvido que Bergman desconhecesse o significado de “alma” nos idiomas de origem latina. O nome da personagem dá também uma boa dica sobre o significado dela na trama. Devido à mudez de Vogler, os monólogos de Alma são responsáveis pela viagem de auto-conhecimento e de revelação de ambas.

Destaque para o teor minimalista de toda a obra. Os cenários são simples, praticamente sem elementos de decoração, sóbrios, quase ascéticos. O figurino é discreto e, mesmo o filme sendo em preto-e-branco, pode-se notar que as cores são neutras, branco ou preto (note-se a alteração na cor da roupa das personagens na segunda metade do filme, quando ocorre a mudança na natureza do vínculo entre elas). Até mesmo o elenco é bastante enxuto, apenas 5 atores.

A atuação das atrizes é impecável. Ullman, mesmo muda, consegue dar à sua expressão, a seu olhar, tamanha intensidade que em alguns momentos, assim como a personagem, chegamos a achar as palavras totalmente dispensáveis. Andersson conduz brilhantemente seus monólogos, enquanto expõe a personagem ao escrutínio de Vogler e do espectador. E a câmera de Bergman conduz o olhar do público de modo arrebatador, com planos muitas vezes inesperados, incomuns. Além dos longos silêncios, a fotografia do filme é grande responsável pela criação da atmosfera claustrofóbica que por vezes chega a sufocar o espectador. Os planos fechados, os closes nos rostos, o contraste constante entre luz e sombra, branco e preto. E é nesse jogo de contrastes que ocorre a sobreposição, e subsequente fusão, da face das duas mulheres, quando as personagens se fundem. Sua relação é tão intensa que uma parece tornar-se a outra, numa integração tão íntima que, em dado momento, tem-se a impressão de que são uma só. Em várias cenas do filme pareceu ser, a grosso modo, um corpo com duas cabeças. Duas personalidades fundidas numa só. Uma simbiose tão profunda que os limites entre elas praticamente deixam de existir.

Outro detalhe que atraiu minha atenção foi a “direção” do olhar da câmera. Enquanto na maioria dos filmes, o foco permanece sempre em quem está falando, em muitas cenas somos levados a observar a reação de quem escuta. É como se o diretor quisesse nos fazer ponderar sobre a dinâmica da comunicação. Em muitas ocasiões nos esquecemos que a palavra é metade de quem fala, metade de quem escuta – na verdade, duas mãos de uma mesma via. E o olhar da câmera, uma extensão do nosso, nos faz reparar na reação do ouvinte ao que está sendo dito, ao invés de reparar em como está sendo dito. E o clímax desse jogo de observação – e, na minha opinião, o clímax do filme, além de ser minha cena predileta – é a cena que se repete apenas trocando-se o plano. Na primeira vez, somente ouvimos a voz de Alma enquanto vemos as reações de Vogler. Em seguida, a mesma cena, mas desta vez, ouvimos e vemos Alma. E o final da cena sintetiza em imagens o relacionamento das personagens.

Mesmo sendo da natureza humana perguntar-se constantemente “quem sou eu?”, “como os outros me vêem?” “até que ponto me conheço?”, acredito que não seja um filme para todos os públicos. Para os que não gostam de filmes “psicológicos”, certamente não é uma boa pedida, é quase certo que acharão monótono e cansativo. Já quem curte ser desafiado intelectualmente ao ver um filme, não pode deixar de conferir. Há tantos detalhes a reparar, que tenho certeza de ter deixado passar vários não observados. Não posso afirmar que seja o melhor Bergman, pois foi o único que assisti. Mas posso afirmar, sem dúvida, que gostei bastante, mesmo não sendo um filme fácil de consumir.

“Pensa que não entendo? O inútil sonho de ser. Não parecer, mas ser. Estar alertar em todos os momentos. A luta: o que você é com os outros e o que você realmente é. Um sentimento de vertigem e a constante fome de finalmente ser exposta. Ser vista por dentro, cortada, até mesmo eliminada. Cada tom de voz uma mentira. Cada gesto, falso. Cada sorriso uma careta. Cometer suicídio? Nem pensar. Você não faz coisas deste gênero. Mas pode se recusar a se mover e ficar em silencio. Então, pelo menos, não está mentindo. Você pode se fechar, se fechar pra o mundo. Então, não tem que interpretar papéis, fazer caras, gestos falsos. Acreditaria que sim, mas a realidade é diabólica. Seu esconderijo não é a prova d’água. A vida engana em todos os aspectos. Você é forçada a reagir. Ninguém pergunta se é real ou não, se é sincera ou mentirosa. Isso só é importante no teatro. Talvez nem nele. Entendo porque não fala, porque não se movimenta. Sua apatia se tornou um papel fantástico. Entendo e admiro você. Acho que deveria representar esse papel até o fim, até que não seja mais interessante. Então pode esquecer como esquece seus papéis.”
(a médica, in Persona)

One comment

  1. Fez as perguntas relevantes, buscou analisar o que o design de produção, os figurinos, o posicionamento da câmera e a fotografia diziam (e extraiu dali respostas próprias) e, fora um ou outro errinho ortográfico (“expectador”), escreveu um texto fluido e interessante.

    Deixou o professor orgulhoso.

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