“Excellent!” I cried. “Elementary”. said he.

Sherlock (2011)
BBC

Assim como o colega do blog “Beco do crime”, @geniodocrime, também fui apresentada bem cedo a Sherlock Holmes, por volta de meus 12-13 anos de idade. Consumidora voraz de livros antes mesmo de aprender a ler, sempre gostei das chamadas “estórias de mistério”. Divertia-me muito exercitando minha lógica, na época num nível bem aquém do mínimo necessário, brincando de detetive com as aventuras dos livros. Sabendo de meu gosto por esse estilo de literatura, não demorou muito para a dona da livraria que eu frequentava quase semanalmente me indicasse a obra de Conan Doyle. Por sorte, o primeiro que li era realmente o primeiro publicado – “Um estudo em vermelho”, publicado originalmente pela primeira vez em 1887.

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(Um parênteses aqui: creio já ter comentado sobre qualidades para uma obra ser considerada um clássico. Uma delas é ser atemporal, ou seja, resistir à passagem do tempo. E os livros com as aventuras de Sherlock Holmes são exatamente assim. Lê-los hoje em dia ainda é garantia de entretenimento de ótima qualidade. )

Algo que sempre senti falta nas numerosas adaptações do personagem para a tv ou cinema foi o espírito vigoroso das aventuras. Pareceu-me sempre que os roteiristas preocupavam-se demais em enaltecer e frisar as qualidades lógicas dedutivas do personagem em detrimento de suas habilidades físicas em artes marciais, esgrima e boxe. Resgatou-se um pouco disso nesse último filme, com Robert Downey Jr. como Sherlock, mas infelizmente a estória tinha pouco, quase nada, a ver com as aventuras literárias.

E eis que em 2011, os fãs de séries foram surpreendidos – positivamente surpreendidos – por uma produção da BBC, com apenas 3 episódios, revisitando o personagem. Eu, pessoalmente, havia lido algo vagamente sobre a série. Mas apenas me decidi a assistir depois da indicação do @fotogramadig, o Alexandre do blog “Fotograma Digital“, e do @geniodocrime. Tio Torrent me ajudou, trazendo as séries para o meu HD e assisti a um episódio por dia. Terminei me lamentando por serem apenas 3 episódios e googlando ansiosamente tentando descobrir algo sobre a 2a.temporada. Havia lido tão pouco sobre a série que não sabia tratar-se de uma versão contemporânea de Sherlock. Comecei a assistir ao primeiro episódio com a impressão de ter baixado o arquivo errado. Assim que percebi que estava tudo certo já tinha sido conquistada pelos personagens. E, apesar do adiantado da hora e da longa duração (1:30), não consegui largar o episódio antes do final. Sinceramente, não pensei que uma repaginação do personagem nos dias atuais seria tão bem sucedida.

UntitledPor já fazer parte do imaginário popular, mesmo os que não leram nenhum dos livros entenderão perfeitamente as estórias. Mas, logicamente, quem já os leu tem diversão extra garantida. Já que os episódios inspiram-se nas aventuras literárias, referências, citações e correlações entre os livros e os roteiros são praticamente easter-eggs para os leitores-espectadores. Impossível evitar aquele sorrisinho matreiro ao identificar um detalhe que alude aos livros. É algo que incrementa a qualidade da série como um todo.

A dinâmica entre os atores e, consequentemente, entre os personagens é muito boa. Reflete fielmente o relacionamento entre Holmes e Watson, do modo como me acostumei a ler nos livros. A cena em que se conhecem, guardadas as devidas proporções, é exatamente como eu a tinha imaginado ao ler “Um estudo em vermelho”. Os roteiristas – Mark Gatiss, Steven Moffat (de Dr.Who) – conseguiram apreender a essência de Sherlock, e o ator (Benedict Cumberbatch) – além de fisicamente muito similar à descrição que Doyle faz dele – incorporou perfeitamente a frieza, a ironia, a excentricidade, a inteligência além do normal e, forçosamente, a arrogâcia ao demonstrá-la. Sua performance é excepcional. Não lembrava de tê-lo visto em nenhuma outra série ou filme anteriormente, e uma rápida pesquisa no IMDb confirmou isso. John Watson inexplicavelmente em muitas das adaptações foi apresentado como um homem ligeiramente acima do peso, gordo até em algumas delas. Mas nesta, apesar de não corresponder exatamente às características descritas por Doyle, sua personificação é bem mais próxima do personagem (mesmo não tendo o clássico bigodinho). Já tinha visto o ator, Martin Freeman, em outras produções. Sua atuação na série está muito acima de sua insossa caracterização de Arthur Dent em O guia do mochileiro das galáxias. Felizmente, quase tão boa quanto em The office.

Apesar do uso mais frequente de planos externos no terceiro episódio, no geral, a direção de fotografia é bastante intimista. Os interiores são mostrados em detalhes, já que atenção aos detalhes é característica essencial da personalidade de Holmes. Muitos planos fechados e closes, principalmente enquanto Holmes desfia suas conclusões (óbvias para ele) a seus incrédulos e pasmos ouvintes (e espectadores). Interessante também como, em algumas cenas, o olhar da câmera nos deixa com a impressão de estarmos espiando o que se passa. A trilha sonora é bastante boa, em alguns momentos lembra um pouco a de Dexter, principalmente o ar jocoso de alguns acordes em certas cenas.

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A incorporação da utilização de recursos mais “modernos” por Holmes foi feita de modo extremamente natural. Os smartphones são usados com frequência, tanto para ligações como para envio de SMS e consulta ao Google Maps. E a internet, já que tanto Holmes como Watson são usuários e geradores de conteúdo. Holmes tem um site – The Science of Deduction – para se auto-promover (obviamente) e Watson mantém um blog – The personal blog of Dr. John H.Watson – onde relata suas impressões sobre as aventuras e desventuras em companhia de Holmes. E no primeiro episódio, uma conta de email é informação importante no fluxo dedutivo de Holmes.

Analisando como um todo, os roteiros estão bem acima da média. Dos três episódios, achei o segundo o mais fraco. Perdeu bastante ritmo. Foi o único em que percebi – e lamentei – a hora e meia de duração. Mas o terceiro foi tão bom quanto o primeiro, deixando um gancho importante para o início de uma possível próxima temporada. Para a alegria dos espectadores, que se viciaram na série em apenas 3 episódios (eu me incluo), a BBC já confirmou a produção da 2a.temporada.