Dans la maison

Dans la maison (2012) – Dentro da casa
roteiro: Juan Mayorga (play), François Ozon
direção: François Ozon
4 out of 5 stars

Há sempre aqueles diretores que, apesar de já terem dirigido diversos filmes notórios, acabam sendo lembrados na maioria das vezes apenas por um deles. Não sei se com todos os cinéfilos ocorre o mesmo, mas comigo, ao pensar em Ozon, vem-me à mente imediatamente o non-sense da mistura de musical, comédia e suspense de Huit femmes (Oito mulheres) – com a diva Catherine Deneuve e a ótima Isabelle Huppert. Mas talvez, a partir de agora, eu passe a lembrar também deste.

dans la maison

Sinopse:
Um rapaz de 16 anos, consegue entrar na casa de um colega da sua aula de literatura e resolve escrever sobre o fato no seu trabalho de francês. Animado com o dom natural do aluno e o progresso do seu trabalho, o professor volta a apreciar a função de educador dos jovens. Entretanto, a invasão do aluno vai desencadear uma série de eventos incontroláveis.
(fonte: filmow.com)

Antes de assistir ao filme, havia lido alguns comentários favoráveis que, num primeiro momento, me pareceram exagerados, já que a sinopse dava a ideia de ser uma estória meio insossa. Contudo, minha primeira impressão foi-se dissipando à medida que a trama avançava. Classificado como comédia em alguns sites, é um filme difícil de categorizar. Há momentos de humor, com certeza, mas nada além do que ocorre no cotidiano da maioria das pessoas.

O professor, Germain (Fabrice Luchini), vendo o potencial do aluno, começa a lhe dar dicas sobre construção da trama, motivação dos personagens, além de lhe emprestar alguns livros. Germain, junto com sua esposa, Jeanne (Kristin Scott Thomas), acompanha a narrativa de Claude (Ernst Umhauer) sempre aguardando ansiosamente pelo “próximo capítulo”. E a trama se desenrola de tal forma que o espectador assiste e fica em dúvida se o que Claude escreve aconteceu realmente ou se foi fruto da imaginação dele.

Não sei se o filme é tão interessante para alguém que não tem o hábito da escrita ou não faz ideia de como é o processo de criação de uma estória. Mas para quem se encaixa no perfil descrito certamente é bastante gratificante acompanhar a evolução do rapaz e, principalmente, observar em suas redações como ele aplica os conhecimentos passados pelo professor. Porém o filme não trata apenas do “fazer” literário. Questiona até que ponto vai a ética, ou melhor, o quanto é moralmente aceitável o voyerismo praticado pelo casal. Questiona também a invasão de privacidade perpetrada por Claude a fim de observar os “personagens” da sua estória e obter matéria-prima para seus escritos.

Os diálogos são o ponto alto do filme. Extremamente instigantes e, ao mesmo tempo, verossímeis. Apesar de longos em alguns momentos nunca são entediantes. E, o mais importante, não subestimam a inteligência do espectador. Estão no limite exato entre o que é necessário ser dito e o que deve ser inferido e deduzido por quem assiste.

É o tipo de filme que a gente termina de assistir muito, muito satisfeita por ter usado o tempo numa experiência cinematográfica tão prazerosa.

Claude:
“Il ya toujours un moyen d’entrer.”
(“Sempre há uma maneira de entrar.”)

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