"What would you do if you knew you only had one minute to live?"

meteorologia: e chove, e chove…
pecado da gula: torradas com nutella
teor alcoolico: 2 stella artois
audio: pó de cash #33
video: true blood

Source code, direção Duncan Jones

Há muito tempo não assistia a um filme recém-lançado sobre o qual não tinha ouvido/lido absolutamente nada. Aliás, não sabia sequer da existência dele. Encontrei-o, por acaso, ao procurar “The adjustment bureau” no Filmes Com Legenda ( @FilmeComLegenda ). Conferi o elenco – pareceu promissor; o diretor – desconhecido (para mim); passei os olhos rapidamente pela resenha – sci-fi sempre merece atenção. Num feriadão preguiçoso, pareceu uma boa pedida. Parei a pesquisa por ali e resolvi assisti-lo sem qualquer outro dado adicional. Não me arrependi. Em tempos de globalizacão, internet e excesso de informação, conseguir reviver aquela sensação (de décadas atrás) de descobrir o filme ao vê-lo pela primeira vez foi mesmo muito bom. Quando terminei de assistir, achei que talvez parte do meu entusiamo com o filme fosse devido a isso. Mas não, o filme é realmente bom.

É um thriller de ficção científica bastante engenhoso. Conta a estória de um soldado, Colter Stevens (Jack Gyllenhaal), que um dia acorda no corpo de um desconhecido. Ele é obrigado a (re)viver os minutos que antecedem a um acidente de trem causado por uma explosão, até que consiga localizar o autor do atentado.

Um aparte sobre sites/blogs sobre cinema e as “fichas” dos filmes. Entendo por ficha, aquele resumo da estória do filme, acompanhado da lista de elenco, diretor, etc. Incrível como vários autores dessas fichas pouco se importam em estragar algumas surpresas do filme. Como disse há pouco, sorte não ter lido quase nada sobre o filme, senão parte da imersão no universo da estória teria se perdido. Alguns dos textos que li depois, para saber mais sobre o filme, simplesmente entregavam as respostas a alguns questionamentos feitos durante a narrativa. Na ânsia de contar a estória, parecem esquecer que descobrir alguns fatos junto com o personagem faz parte da experiência do filme.

Aliás, esse é um recurso que foi muito bem utilizado. O roteiro de Ben Ripley faz uso bastante eficiente desse artifício. Deixar o espectador tão perdido quanto o personagem no início do filme, permitindo que descubra os fatos junto com o personagem, é algo que causa identificação quase imediata com ele. Colocar o espectador na mesma situação que ele, nos prende à estória desde o início. E, depois de sermos “pêgos”, dificilmente abandonaremos o filme antes do fim, afinal, nós também queremos ser esclarecidos. Apesar do início ser exageradamente dramático, principalmente devido à trilha sonora, a apresentação dos personagens é bastante eficiente e consegue nos convencer a seguir assistindo.

E, para não incorrer no mesmo erro dos blogs supracitados, fica o aviso: “Spoilers à vista”. Obviamente, nenhuma revelação bombástica, mas não há como comentar alguns aspectos e descrever as impressões sobre o filme sem revelar alguns pequenos detalhes. Pequenos mesmo. Se o caro leitor não se incomodar, ou já tiver obtido várias dicas lendo resenhas ou assistindo trailers e teasers, sinta-se à vontade para continuar a leitura.

A estória é bastante original, mas é humanamente impossível não lembrar de outras obras enquanto assistimos. Ao longo do filme, lembrei (conscientemente) de “Déjà vu”, “Run Lola Run”, “Groundhog Day”, “The Matrix”, “The butterfly effect”, “O homem duplo” (Philip K.Dick). Ah, talvez por tê-lo revisto há pouco tempo, pensei em “Inception” também. Certamente, detendo-me um pouco mais, lembraria de algumas outras referências. Mas creio que essas já sejam o suficiente para ajudar a descrever o filme.

Mas vamos do início, o título. Nerds analistas de sistemas não se iludam, o filme não é sobre análise de código. “Source Code” é, na verdade, o nome do programa experimental do qual faz parte o soldado Colter Stevens. E é como parte desse programa que Colter acorda no corpo de um desconhecido, o professor Sean Fentress, em um trem, em companhia de uma mulher desconhecida – que depois descobrimos ser Christina Warren (Michelle Monaghan). “O homem duplo” veio-me à mente justamente pela situação em que Colter se encontra, ocupando o lugar de outra pessoa, mesmo a contragosto. E Gyllenhaal convence bem no papel de herói relutante.

Em português, o título virou “Contra o tempo”, o que já entrega uma das premissas do roteiro. Ao mesmo tempo em que personagem é informado (como nós) de que faz parte desse programa, também fica sabendo que está revivendo os últimos 8 minutos de vida do professor, e que tem apenas esse tempo para cumprir sua missão. Pensei imediatamente em “Déjà vu”, uma viagem no tempo a fim de evitar uma catástrofe. Mas logo em seguida, recebemos (junto com o personagem) um dado importante: ele repetirá essa experiência até encontrar o responsável pela explosão no trem, o que me remeteu à “Run Lola Run”. (Talvez por não gostar muito de Bill Murray, tenha lembrado de “Groundhog Day” só mais tarde). Mas em “Run Lola Run”, a estória se repete apenas 3 vezes durante o filme. Tive receio de que a repetição de um intervalo tão curto tornaria o filme cansativo e arrastado mas, felizmente, estava enganada. Adicionando mais elementos a cada retorno e enfocando a situação de ângulos diferentes, o roteiro consegue evitar que os 8 minutos sejam apenas mais do mesmo.

E, assim como o personagem vai acumulando informações, a estória vai ganhando corpo. Pois Colter não está apenas interessado em cumprir sua missão. Em paralelo, quer entender o que faz ali, como chegou àquele lugar, quem são as pessoas que conversam com ele e o instruem – a Tenente Goodwin (Vera Farmiga) e o Dr.Rutledge (Jeffrey Wright). Este último acaba por se identificar como o responsável pelo Source Code e pelo recrutamento de Colter. E, numa fala que mais parece um trava-línguas, explica os conceitos que tornam o projeto possível, misturando mecânica quântica, universos paralelos, óptica, neurologia, realocação temporal, eletromagnetismo. Se, por um lado, o roteiro não perdeu tempo num longo discurso científico a exemplo de um Dr.Moreau ou Dr.Frankenstein explicando sua teoria, por outro as informações foram jogadas de uma maneira que talvez desagrade aos espectadores com algum conhecimento (ou interesse) em física. Durante a cena, enquanto eu tentava fazer com que os conceitos jogados fizessem sentido, só conseguia ter a impressão de que o “recado” do diretor era “A explicação é essa, é o que tem pra hoje. Espectador, não tente entender o que está além da sua compreensão. Compre a ideia e siga assistindo.” Foi um momento em que a suspensão de descrença não funcionou (comigo). Provavelmente, o público leigo engole o blá-blá-blá pseudo-científico.

O elenco está bastante bem, à exceção de Jeffrey Wright que mais parece estar declamando suas falas e saltitando de um lado para outro com sua muleta. Jake Gyllenhaal e Michelle Monaghan têm uma boa química e, competentes, conseguem garantir frescor e espontaneidade a cada repetição dos 8 minutos. Destaque para Vera Farmiga que passa a maior parte do tempo contracenando e conversando com um monitor e uma câmera. Atentei para os planos em que ela aparece no monitor para Colter. Em vários momentos, sua imagem está incompleta, cortada acima ou abaixo – como um cinegrafista amador que “corta” uma parte do rosto da pessoa filmada. É bastante significativo quando entedemos a situação do soldado. Outro destaque na fotografia do filme, são as cenas dentro do trem. A variação dos pontos de vista auxiliam na tarefa de tornar cada intervalo diferente do anterior.

Com um misto de drama, suspense e sci-fi, o filme consegue entreter do início ao fim. Não percebi nenhuma “barriga” no arco dramático da estória, nenhum momento em que pensei “poxa, esta cena (ou diálogo) é desnecessária”. Mérito do roteirista, que conseguiu balancear bem cada aspecto da narrativa, ampliando os horizontes do espectador junto com os do personagem. Resta-nos relevar as imprecisões científicas e embarcar nessa ficção científica despretenciosa e criativa.

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