"Fasten your seatbelts, it’s going to be a bumpy night!"

All about Eve (1950) – A malvada
roteiro e direção: Joseph Mankiewicz
4.5 out of 5 stars

Não tencionava escrever um post sobre o filme, mas depois de comentá-lo com meu ouvinte de plantão – Douglas, sempre – tive várias ideias e algumas impressões que julguei interessantes o suficiente a ponto de discorrer sobre elas num texto um pouco mais longo. Aliás, tenho aprendido que comentar o filme é uma ótima maneira de analisá-lo e tentar entender as intenções do diretor. E, para minha satisfação, tenho percebido que os comentários são bons o bastante para instigar quem ainda não assistiu o filme comentado e deixar com vontade de assisti-lo. O professor @pablovillaca ensinou que essa é uma das funções do crítico de cinema: “Auxiliar o leitor na sua educação cinematográfica.” Minha contribuição é pequena mas bastante gratificante.

all about eve

Assisti ao filme há algumas semanas. Aliás, revi o filme, pois já o havia assistido há muito, muito tempo. E pouco lembrava dele a não ser a presença marcante de Bette Davis. Como em muitos outros casos (infelizmente), o título em português não colabora muito. Somos induzidos desde o início a tentar identificar entre as personagens “a malvada” do título, a vilã, e isso acaba sendo um problema. Interfere de modo significativo para que desfrutemos do filme como o diretor certamente gostaria. O título original nos exime disso, pois apenas dá a entender que é a estória de uma mulher chamada Eve. E Eve é uma moça, fã de uma atriz famosa que, em dado momento, conhece o objeto de sua admiração e acaba tornando-se sua “protegida”. Simples assim. Mas, a partir disso, o diretor/roteirista desenvolve uma apreciação bastante minuciosa e ácida sobre o ambiente em que vive a atriz. E, subjacente a isso, a exemplo de Persona (porém menos explicito que neste), há uma análise sobre o uso da “máscara”, sobre os papéis que desempenhamos em nossa vida, no nosso dia-a-dia. Há uma cena no filme, quando Margo (Bette Davis) e Karen (Celeste Holm) conversam dentro de um carro parado, em que nitidamente Margo despe a máscara da atriz famosa para ser apenas uma mulher.

O roteiro é irrepreensível. Não há o que criticar ou ressalva a fazer. Os diálogos são articulados, tão bem construídos e envolventes quanto os de Who’s Afraid of Virginia Woolf? – que IMHO acho praticamente perfeitos. Devido ao fato de ser um filme antigo (anos 50), lógico que, diferente dos mais recentes, a encenação é toda bastante teatral, mas de modo algum isso atrapalha. A maior parte dos conflitos concentra-se nos diálogos, no jogo de palavras, na significação do que é dito pelos personagens. E isso é algo com que qualquer fã de Tarantino se identifica.

Ainda sobre o roteiro, a não-linearidade da narrativa (recurso que muitos acham ser sinônimo de modernidade no cinema) foi utilizada de maneira bem eficiente e sem exageros. A cena inicial – uma premiação – é o final da estória, com uma narração em off, que descobrimos ser de um crítico teatral, descrevendo os demais personagens. A forma como o faz reflete o estereótipo da profissão, um artista frustrado que destila seu veneno e sarcasmo – e, talvez, inveja – ao comentar sobre o “show business” do qual não é parte atuante. E é uma constante no filme essa crítica à indústria do entretenimento e ao modo de sobreviver nele. A partir desse ponto, voltamos no tempo para entender como se desenrolou a trajetória de Eve até esse momento.

margot

Outro recurso narrativo utilizado – que eu gosto muito, tanto em livros quanto em filmes – é contar a estória sob diferentes ângulos, visões diversas de personagens diferentes. Utilizado com perfeição em Rashomon, dirigido por Akira Kurosawa, consegue envolver o espectador de modo a fazê-lo enxergar os acontecimentos pelos olhos do personagem. Desse modo, variando o juízo feito das ações/reações dos demais personagens. E Mankievicz tem total êxito nisso. Minha opinião pendeu para vários lados durante o filme. Mudei o julgamento sobre a motivação dos personagens diversas vezes. E, influenciada pelo título em português, achei que a malvada fosse três personagens diferentes até ter total certeza no segundo terço do filme. A condução do roteiro nesse sentido é muito, muito eficiente. E o mais interessante é que, em dado momento do filme, inverte-se a percepção sobre as personagens centrais. Atenção, spoiler à vista. Aquela que o público é levado a pensar ser a mocinha no início do filme, revela-se como sendo, na verdade, a malvada do título. Eve, a moça em dificuldades, solitária, desprotegida, que sofre com a arrogância de Margo, na realidade usou seu talento de atriz para fingir ser quem não era, a fim de atingir seu objetivo. E nos vemos obrigados a nos questionar se é moralmente válida sua atitude. Mesmo quando essa inversão de papéis começa a se delinear na estória, é difícil acreditar. O espectador se pega pensando “Não é possível, não posso ter me enganado tanto até agora.” E a sensação, no momento em que se dá conta de que Eve é (desculpem o clichê) lobo em pele de cordeiro, é de que a personagem não traiu apenas a confiança de Margo, traiu a do espectador também, por isso a indignação é tanta – e o roteiro tão bom. Admito que pensei “Powtz! Eu acreditei nessa vagabunda!”

Lógico, que boa parte da excelência do filme deve-se ao elenco. Atuação perfeita de Bette Davis, talvez a sua melhor. Pergunto-me se sua escolha foi proposital, não só pelo seu talento óbvio como pelo fato de que a vida da atriz naquele período tem vários paralelos com a situação da personagem. Assim como Margo, Bette Davis era na época uma atriz quarentona cujo auge da carreira já havia passado, representando papéis menores, pouco expressivos. Anne Baxter, como Eve, também não fica atrás. E assim como sua personagem, é a jovem atriz promissora que passa a querer ocupar o lugar de atrizes consagradas, tanto que pressionou os produtores para ser indicada ao Oscar de melhor atriz, ao invés de atriz coadjuvante, concorrendo com a própria Bette Davis. Mas o grande destaque fica para George Sanders, como o crítico Addison DeWitt. Consegue tornar seu personagem tão desprezível quanto o mundo do entretenimento criticado no filme. E uma curiosidade sobre o elenco, Marylin Monroe faz uma ponta como uma moça estouvada, aspirante a atriz.

Como escrevi no Drops, um clássico é uma obra que tem como uma das características ser atemporal, ou melhor, atual independente da época em que seja apreciada. E isso sem dúvida se aplica a All about Eve. Mais que um clássico, é uma obra-prima.

https://www.youtube.com/watch?v=skZDG3Ffw8A

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