“I hate these people”

Damages (2007)
FX

Arthur: I know you don’t give a shit about justice, Patty. So what do you want?
Patty: I want you disgraced. I want history to erase your every achievement. I want you to feel the disgust in your children’s eyes when they look on you in shame.

I hate these people

Sempre gostei de filmes e séries de tv sobre advogados, julgamentos e afins. Não que a profissão me atraia. Não tenho, nem nunca tive qualquer intenção de seguir alguma carreira da área de Humanas. Mas esse papel misto de investigador, psicanalista e advogado propriamente dito que os advogados das séries americanas assumem sempre foi um grande atrativo.

Durante algum tempo, não perdia um episódio sequer de The practice nem de Ally McBeal. A primeira, mais séria, sempre com casos controversos e difíceis, que justificam o título em português – O desafio. A segunda, com uma abordagem bem mais leve, eventualmente flertando com a comédia. Também assistia esporadicamente Boston Legal e Law & Order.

Já há algum tempo escuto falar, ou melhor, leio a respeito de Damages, série originalmente produzida pelo canal FX. Assisti a partes de um ou outro episódio, mas nunca cheguei a acompanhá-la. Como a série está disponível no NetFlix, resolvi começar do começo e assistir à primeira temporada. Inicialmente, tinha o propósito de alternar com outras séries que assisto atualmente – Breaking Bad, Criminal Minds e Fringe. Mas depois de assistir ao primeiro episódio, só conseguia pensar em assistir ao seguinte. E terminei de ver toda a temporada em menos de 5 dias.

damagesNão me recordo de ter assistido a uma série com um roteiro tão bem escrito e tão bem amarrado. Diferente das outras séries citadas – e da maioria das séries investigativas – não há um caso por semana (ou por episódio) a ser resolvido. O arco narrativo estende-se por toda a temporada, o que é um trunfo para deixar o espectador com vontade de seguir assistindo. Mas poderia ser um tiro no pé, caso o roteiro e a montagem não estivessem tão bem estruturados.

E já que a estória é uma só, antes de continuar minhas considerações (*), segue um ligeiro resumo. Patty Hewes (Glenn Close) – chefe e sócia-proprietária de um conceituado escritório de advocacia, Hewes & Associates – tem em mãos um processo coletivo contra Arthur Frobisher (Ted Danson) – um grande empresário acusado de fazer uso de informação privilegiada ao vender as ações de sua própria empresa. Para ajudá-la, Hewes conta com Tom Shayes (Tate Donovan) – advogado e seu assistente direto – e Ellen Parsons (Rose Byrne) – advogada recém-formada e recém-contratada por Hewes. Em seu meio, Hewes é considerada uma profissional sem escrúpulos e conhecida pelos métodos pouco ortodoxos de alcançar o que pretende.

Mas o que faz esta série ser tão acima da média em relação às demais produções com a mesma temática? Basicamente é o roteiro. Bastante inovador e inteligente, é muito bem-sucedido ao conduzir o espectador pelos meandros da narrativa. Assim como alguns personagens são alertados durante a estória, nem tudo é o que parece ser. É natural que o espectador acredite e tire conclusões de acordo com o que está vendo. Ou melhor, com o que está sendo exibido. E, alguns episódios depois, uma cena, um detalhe que não tinha sido mostrado anteriormente, faz mudar todo o raciocínio, assim como o rumo da estória. A montagem certamente foi feita com esse intuito de conduzir e induzir o espectador. Em certos momentos, a impressão que tive foi de estar assistindo a um truque de mágica. Minha atenção sendo desviada – eficientemente desviada – para depois ser pega de surpresa com uma descoberta do tipo Ah, então isso não era isso… era aquilo! E este recurso é o que torna a narrativa tão deliciosamente intrigante.

damages3[1]Outro recurso usado de forma bastante eficaz é o de linhas temporais distintas. Prefiro não chamar de flashbacks, pois acho que não reflete exatamente o conceito utilizado. Algo que poderia se tornar cansativo, com muitas idas e vindas do presente ao passado, serve com perfeição à finalidade de transformar a estória num quebra-cabeça que ansiamos por ver finalmente montado. Acompanhamos duas linhas temporais, o presente e os 6 meses que o antecedem. Como as incursões ao passado não são cronologicamente sequenciais, somos avisados por letreiros indicando há quanto tempo o fato ocorreu – 5 months earlier, 3 weeks earlier, etc. A volta ao presente não é anunciada, mas nos é disponibilizada uma forma bastante explícita de identificá-la. A exemplo de Traffic, o diretor utiliza-se de um recurso visual a fim de diferenciar as linhas temporais. Enquanto no passado a imagem não sofre tratamento algum, no presente ela é alterada. As cores estão saturadas, as sombras enfatizadas e a imagem está um pouco mais granular que o normal. Certamente, com o propósito de refletir a situação de stress em que se encontra a personagem. Mas o mais interessante é reparar no momento em que as duas linhas se fundem e que os efeitos da linha temporal do presente se diluem enquanto a personagem atravessa um túnel em direção à rua.

Lógico que apenas a utilização eficiente desses recursos narrativos não seria suficiente para segurar a série. A estória tem de ser boa, assim como os personagens. Devido ao tema da série, não seria viável e/ou verossímil sair do lugar-comum do ambiente jurídico. Um caso polêmico, advogados de acusação, advogados de defesa, provas e testemunhas omitidas ou desacreditadas, intrigas nos bastidores. Enfim, o de sempre. Ou quase, já que cenas no tribunal e/ou à frente de um juiz são bastante raras. E, para completar, personagens cativantes, que conquistam o espectador episódio a episódio.

Patty Hewes é, per se, icônica. Tão brilhante quanto inescrupulosa. Tão inteligente quanto execrável. Tão admirável quanto desprezível. É o tipo de personagem que todos amam odiar. E a performance de Glenn Close está irrepreensível. Apesar de algumas das atitudes da personagem parecerem, aos nossos olhos, exageradas e por vezes descabidas, sua interpretação garante a verossimilhança necessária. Consegue dar o tom exato de ambiguidade que faz o público passar da crença à descrença em instantes. E boa parte disso deve-se à ótima construção da personagem. Patty não é apenas a advogada feroz e inescrupulosa. A adição de pequenos detalhes do cotidiano – ter insônia e sintonizar a tv de madrugada naqueles programas de venda de jóias ou perder a luta com o controle remoto da tv a cabo – humanizam a personagem e a deixam mais próxima do espectador.

damagesEllen Parsons também é uma personagem que se desenvolve de maneira bastante interessante no decorrer da estória. Somos apresentados, no início (cronológico) da estória a uma advogada à procura de seu primeiro emprego. Ainda idealista, ainda sem a malícia característica da profissão. A personagem chega a ser um pouco insossa, sem graça. E, à medida que a narrativa avança, testemunhamos seu crescimento, vemos florescer seu talento como advogada. A observamos evoluir em direção à Patty, apesar de ser nítido que não é algo premeditado. Percebemo-la absorvendo e passando a utilizar alguns dos artifícios de Patty. O desenvolvimento da personagem é realmente muito bem construído. Um dos arcos dramáticos mais interessantes da série, apesar da atuação da atriz deixar um pouco a desejar em alguns momentos. Mas isso não chega a atrapalhar.

O elenco de apoio também é bastante competente. Até Ted Danson, que eu lembrava como um paspalho em Cheers, está muito bem. Some-se a ele Zeljko Ivanek (ótimo como o advogado de Frobisher), Peter Facinelle (antes de fazer parte da família de vampiros purpurinados), Philip Bosco (que eu lembrava como Otis, de Kate & Leopold), Tate Donovan (pai da Marisa em O.C.), Peter Riegert (figura conhecida em várias séries televisivas, inclusive The Sopranos).

Em resumo, vale muito a pena assistir. E não é preciso ser fã de séries com advogados para gostar. A qualidade é mais que suficiente para agradar a gregos e troianos.
Eu recomendo.

(*) Todas as minhas observações e comentários dizem respeito apenas à primeira temporada, que foi a única a que assisti. Sei que a série já está na 4a.temporada, mas nada me garante que as demais tenham mantido a mesma qualidade desta sobre a qual resolvi postar.