"I’ll have an answer, or I’ll have blood!"

meteorologia: mais um dia de sol
pecado da gula: coxinha
teor alcoolico: 1 murphy’s irish red
audio: mídias e modos
video: omeletv

Straw dogs (Sob o domínio do medo) – 1971
Direção de Sam Peckinpah
Roteiro de David Zelag Goodman, Sam Peckinpah

Resolvi assistir ao filme depois de ver uma resenha no CineMasmorra – site de cinema pro qual também escrevo resenhas. Como fã de filmes de faroeste, já havia assistido a um filme dirigido por Peckinpah – o excelente “The Wild Bunch” (“Meu ódio será sua herança”), com William Holden e Ernest Borgnine. Achei que a exibição de violência nua e crua tivesse sido uma opção estilística especificamente para esse filme. Afinal, a maioria dos faroestes – os spaghetti nem tanto – sempre exibem violência sem disfarces, sem rodeios. Mas estava enganada. Lendo um pouco mais sobre o diretor e após assistir “Straw dogs” ficou claro que esta é uma característica dos filmes de Peckinpah, chamado por alguns críticos de “o poeta da violência”.

Baseado em um livro de Gordon Williams – “The Siege of Trencher’s Farm” – o filme conta a estória de David Sumner (Dustin Hoffman), um matemático, e Amy Sumner (Susan George), sua esposa. Casados há pouco tempo, mudam-se para a cidade natal de Amy, um vilarejo no interior da Escócia. Passam a morar na casa em que ela viveu parte da infância e adolescência, e contratam alguns antigos conhecidos de Amy para consertar o telhado da garagem. À medida que o filme avança, a animosidade entre os “locais” e David vai aumentando, culminando numa sequência final de tirar o fôlego.

Aviso: não há possibilidade de tecer alguns comentários sem dar spoilers. Portanto, se o caro leitor ainda não assistiu ao filme, continue a leitura apenas se isso não o incomodar.

O diretor opta por mostrar esse estranhamento entre David e os moradores logo de cara. É bastante instigante o modo como percebemos quase imediatamente a implicância com David e a atenção com Amy. Mais instigante ainda pois, a princípio, o casal parece não notar essa reação (quase xenófoba) dos moradores locais – entenda-se como locais um ex-namorado de Amy, Charlie Venner (Del Henney), seus familiares (tio, primo, etc) e amigos.

Desde o início, David é visto como um estranho. Os locais o acham esquisito. E não há dúvida, ele é um estranho no ninho. Um matemático americano, franzino, inexpressivo e, aos olhos da turma que lhe conserta a garagem, covarde também. Referem-se a ele às gargalhadas, sendo sempre motivo de chacota. Por outro lado, Amy é a moça desinibida, atrevida e conhecida deles. A quem dedicam um “olhar” mais intenso e, na maioria das vezes, lascivo. Conflito 1: intelectual versus bando de caipiras.

Importante também no desenrolar da estória, é a condição do relacionamento do casal. Parecem estar fora de sincronia. Amy, ao voltar à casa paterna, parece regredir em idade e várias vezes comporta-se como uma adolescente, o que se contrapõe à seriedade de David, que quer concentrar-se em seu trabalho. Desde a travessura de inverter um sinal no quadro-negro que David usa para escrever suas fórmulas, passando pelo modo de sentar-se, até o jeito de mascar chiclete feito criança, com a boca aberta. Conflito 2: intelectual versus esposa infantilizada. Incomodada com a situação – pelo que acredita ser um distanciamento proposital do marido – Amy usa seu atrevimento para tentar atrair a atenção de David. Porém, o efeito não é o esperado. Na tentativa de suscitar o interesse de David – sem sucesso – acaba atraindo ainda mais o dos rapazes. E esse conflito intensifica-se quando Amy percebe ser alvo dos olhares dos rapazes e, ao queixar-se a David, percebe que ele não tem intenção de tomar qualquer atitude. Ela, então, assim como os locais, passa a vê-lo como um covarde.

Difícil assistir ao filme e não compará-lo a “Funny Games“, de Michael Haneke (crítica aqui). A temática é a mesma – a violência – mas o enfoque, a abordagem é totalmente distinta. Contudo, mesmo tão diferentes, suscitam no espectador questionamentos similares, comuns a ambos os filmes. Há ocasiões em que a violência é justificável? Se sim, em quais situações é válido – ou mesmo justo – fazer uso dela? E onde se localiza a linha tênue que delimita essa fronteira? Essa linha realmente existe? No lugar de David, o espectador agiria da mesma forma? David tinha outra opção além de reagir?

Mas o filme de Peckinpah vai um pouco além. Ele explora o que acontece depois que a violência se instala. Depois que ela se inicia, há um limite em que não é mais possível retroceder? Na aviação há o chamado “point of no return” – localização a partir da qual não é mais possível retornar, apenas seguir em frente. Será que quando a violência se instaura existe algo assim, irreversível? E mais, atravessar esse limite é involuntário? Ou, como Júlio César ao atravessar o Rubicão, a passagem é feita deliberadamente para que não haja possibilidade de voltar atrás? Depois que os rapazes iniciaram as animosidades, havia um ponto em que ainda poderiam “desistir”? David estava tão imbuído da sua “missão” que era impossível parar? Seus motivos eram razoáveis? Sua reação foi desproporcional à sua motivação?

Referente à essa última questão, ela é salientada devido à transformação bastante abrupta nos “modos” de David. Conforme um amigo escritor gentilmente me lembrou, sua atitude muda drasticamente quase da água para o vinho. Num instante ele é um “banana”, que se esconde por trás dos óculos e se encolhe face a qualquer ameaça à integridade de sua rotina; e momentos depois, quase num passe de mágica, converte-se num misto de brucutu e estrategista, algo como um Rambo com habilidades de McGyver. Talvez tenha sido opção do diretor, para evidenciar a metamorfose induzida pelo uso e aceitação da violência como solução de conflito. E, mesmo que me incomode e ache que poderia ter sido um pouco mais sutil, o objetivo foi atingido, pois é impossível não deixar-se impressionar com a transformação operada. Destaque para a atuação de Hoffman, que personifica com extrema competência ambas as facetas do personagem.

Interessante também é a posição em que Peckinpah coloca o espectador. Já na cena de abertura observa-se o vilarejo do alto (quase uma tomada plongé), como um deus observando sua “fazenda de formigas”. E mais de uma vez durante o filme, o público assiste aos acontecimentos desse ponto de vista (*). Diferente de Haneke – em que o espectador sente-se de certo modo cúmplice do que ocorre – Peckinpah faz dele uma testemunha. Testemunha de mãos atadas, cujo único direito é perguntar-se se, estando na mesma situação do protagonista, reagiria da mesma forma. E questionar-se acerca de quanto da atitude de David e dos agressores é fruto da sua natureza e quanto é decorrente da cadeia de eventos que os envolve.

Lembrei também de um outro filme: “Irréversible” (Irreversível), dirigido por Gaspar Noé, que também explora essa perspectiva. Tensão crescente à medida que a estória avança, culminando numa explosão de violência. (No caso de “Irréversible”, a tensão é aparentemente decrescente, já que o filme exibe a estória de trás para frente.) A violência extrema em algumas cenas também é um ponto em comum. Mas no filme francês, os personagens não são tão tridimensionais, com características tão palpáveis. Em “Straw dogs”, ninguém é perfeito. Os personagens são irritantemente verossímeis, pois todos são, de alguma forma, perdedores, gente comum tomando decisões erradas. Não há como gostar de algum 100%. E isso é um fator que causa certo incômodo também – além da temática – pois são pessoas tão “normais” que a identificação é inevitável. Em diversos momentos, o espectador indaga-se “Poderia ser comigo… E se fosse? O que eu faria?”.

E enquanto Haneke não exibe a violência na tela – exceto por uma das cenas – Peckinpah a mostra com riqueza detalhes. Fazendo jus à sua alcunha, tem extremo cuidado na coreografia de cada plano, cada sequência. Apesar de chocantes, o espectador é obrigado a admitir que as cenas são plasticamente admiráveis. E a montagem também é primorosa. Destaque para a cena de estupro cuja interpolação das imagens cria um efeito interessante. Enquanto na primeira sequência, a alternância expõe a frustração de dois personagens (David e Amy) no mesmo momento por motivos bastante distintos; na segunda, as lembranças do acontecido mixadas à balbúrdia das crianças na festa da igreja induzem no espectador a mesma náusea que a personagem experimenta, não conseguindo apagar da memória a violência sofrida. Além disso, as imagens intercaladas refletem também a dubiedade do comportamento de Amy ao ser violentada. Ela resiste e, alternadamente, beija e acaricia o primeiro estuprador.

Essa cena é marcante, não só pelo seu teor e pela maneira excepcional com que foi construída. A cena, em si, é também ambígua. Habilmente , Peckinpah incute no público a suposição de que esse fato será o catalisador do conflito “físico” entre David e os locais. Mas o matemático recorre à violência por motivos totalmente diversos, já que, aparentemente, ele sequer suspeita do que ocorreu com Amy. E, de acordo com sua natureza, os motivos são plausíveis apesar de bizarros aos olhos do espectador que, neste caso, sabe mais que o personagem. Contudo, se o espectador soubesse o mesmo que David, consideraria que os motivos eram, além de plausíveis, suficientes para justificar a fúria que o impele? Pois, de certo modo, aceitamos suas atitudes já que a nosso ver, David (mesmo não estando ciente disso) está defendendo sua honra, a honra da esposa violentada – e não apenas evitando a invasão de sua casa .

E Peckinpah consegue deixar o público com a estranha sensação de que não há certo ou errado. De maneira genial, ao término do filme, faz com que o espectador já não tenha certeza de suas convicções. Ficamos, de certa forma, perdidos – assim como os personagens na cena final: “Não sei voltar pra casa.” – diz Henry, ao que David responde: “Nem eu.”

(*) Essa opção talvez tenha relação com o título do filme.
O título vem de uma citação de Lao-Tzu, filósofo chinês: “Céu e terra não são humanos, e olham as pessoas como se fossem cães de palha”.