“I drive”

meteorologia: sol e calor (ainda)
pecado da gula: pão com nutella
teor alcoolico: 2 stella artois
audio: 99 vidas #31
video: numb3rs

Drive
Direção: Nicolas Winding Refn
Roteiro: Hossein Amini (baseado no livro homônimo de James Sallis)

Além de surpreendida com as muitas qualidades do filme, terminei de assisti-lo com um único pensamento, ou melhor, uma pergunta persistente: “Por que diabos este filme foi esquecido no Oscar?!”

Resolvi assistir depois de ouvir um podcast comentando sobre ele. Procurei não ler mais nada sobre ele antes de vê-lo. Mas depois, fui buscar mais informações e fiquei sabendo que em Cannes – onde foi premiado – após a exibição, o filme foi ovacionado durante 15 minutos. E minha pergunta persistia: “Por que diabos este filme foi esquecido no Oscar?!” E mais: “Por que Ryan Gosling foi preterido na categoria de melhor ator?”

A estória não tem nada de mais. O personagem de Ryan Gosling – o homem sem nome, que é um hábil motorista – trabalha meio período numa oficina, meio período como motorista dublê em filmes e, nas horas vagas, faz um extra sendo motorista de carro de fuga para criminosos. Essa última ocupação faz lembrar de Jason Statham, como Frank Martin em The Transporter, já que, assim como Frank, o motorista também tem suas regras. Mas a similaridade termina aí. O motorista está mais para o homem sem nome que Clint Eastwood imortalizou em seus filmes – caladão, solitário, de passado desconhecido, um herói quase involuntário. Enreda-se involuntariamente numa série de incidentes, devido a seu envolvimento com uma vizinha cujo marido está cumprindo pena.

Mas definitivamente não é a estória o ponto forte do filme. O filme é todo do personagem. Assim como Pablo Villaça (@pablovillaca) comentou em sua crítica: “Drive é um estudo de personagem disfarçado de romance vestindo uma fantasia de filme de ação.” E o personagem é sustentado pela ótima atuação de Ryan Gosling. Ele dá vida ao motorista de forma memorável.

Não se sabe nada sobre seu passado, apenas um ou outro detalhe revelado durante o filme. Mas a cena inicial já dá todas as dicas sobre seu caráter. Metódico, quieto, econômico, contido, de pouco riso, percebe-se que fala apenas o mínimo necessário, não há desperdício, nem de palavras nem de ações. E o ar de tédio e tristeza constantes contrastam com o sorriso espontâneo e juvenil de Irene (Carey Mulligan). Aliás, a direção é primorosa justamente por focar nos detalhes. A sutileza como algumas informações são dadas ao público é digna de reverência. (Spoilers à frente) A cena em que o motorista chega ao estacionamento, vê dois homens e fica encarando-os enquanto estaciona o carro numa vaga – entre um carro e uma pilastra – sem tirar os olhos deles sequer um instante, dá a exata dimensão da habilidade dele ao dirigir, da sua intimidade com o veículo. E esta cena é apenas um exemplo. O filme está repleto de cenas assim.

O filme foi erroneamente vendido como mais um no estilo de “Velozes e furiosos”. Justamente por isso, eu não estava muito interessada em assisti-lo. Mas não é nada disso. Está a milhas de distância de qualquer coisa semelhante a “Velozes e furiosos”. É um tapa na cara de qualquer um que afirme que filmes de ação e/ou perseguição não precisam de um roteiro bem escrito. É preciso destacar que tem a melhor sequência de perseguição a que assisti nos últimos anos, entre um Mustang GT e um Chrysler. Porém, como em todo o restante do filme, refletindo as atitudes do protagonista, nada é desperdiçado, nenhum movimento é feito sem motivo. Há até aquele instante em que nos perguntamos: “Mas por que ele está fazendo isso?” Para termos a resposta na cena seguinte, que enfatiza e confirma as habilidades do motorista, e justifica todas as suas ações até aquele momento.

Há cenas violentas, sim. Mas não são gratuitas. E sempre filmadas de maneira direta, sem rodeios. A violência acontece e é mostrada cruamente, sem subterfúgios ou elipses (pensei agora na minha reclamação em relação a isso no post sobre Hunger games). E é em algumas dessas sequências que percebemos a essência do personagem. E o porquê de ele ser sempre tão contido. A cena do elevador é o resumo perfeito disso (links abaixo). Não chega a ser um easter-egg, já que fica bem visível, mas o espectador que reparar tem a seu dispor mais uma informação sobre o motorista. A jaqueta que o personagem usa durante quase todo o filme tem nas costas o desenho de um escorpião. (Spoilers à frente) Além de várias pequenas referências inseridas na trama, há uma citação literal à fábula do escorpião e o sapo, num dos telefonemas do motorista a um de seus opositores, o que revela mais um pouco da sua personalidade.

Mas o filme não é apenas ação e violência. Há algumas sacadas bem engraçadas, como a do carro sem rodas ou a brincadeira com o nome do marido de Irene. Destaque também para a trilha sonora, bem anos 80. Aliás, destaque para o uso da trilha. Percebe-se claramente a diferença entre os momentos de tensão e os de (quase) relaxamento do protagonista pela presença ou ausência de música durante as cenas. Além da ótima escolha das canções, a sua utilização reflete um cuidado visto em poucas obras. E todos esses elementos juntos fazem dele um filme que vale muito ser visto e revisto. Recomendo. Mesmo.

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