Violon magique

Le concert (2010) – O concerto
roteiro: Radu Mihaileanu, Alan-Michel Blanc, Matthew Robbins
direção: Radu Mihaileanu
3 out of 5 stars

“Dans chaque note de musique, il y a la vie, Anne-Marie.”
(Andreï Filipov)
(“Em cada nota de música, existe a vida, Anne-Marie.”)

le concert

Desconhecia a existência deste filme até alguns dias atrás. O autor deste post assistiu-o e recomendou-o veementemente. Confiando em sua indicação e movida pelo interesse em assistir a filmes fora do mainstream, fui à sua procura – “thanks, uncle Torrent!”. Enquanto o filme era transferido para o meu HD, comecei a procurar informações sobre ele. Produção francesa – “oba, vou assistir sem legendas!” – dirigida por um romeno, estrelada por um elenco formado por franceses e russos – “xii, vou precisar das legendas…”. Indicado ao Cesar em quatro categorias – ganhou as de Som e de Trilha Sonora. Ganhador do Globo de Ouro de Melhor Filme em língua não inglesa. Diferente do Oscar, esses são prêmios que se pode confiar que os indicados – e premiados – têm mérito por estarem ali.

Tinha receio de que os comentários empolgados que ouvi gerassem uma expectativa acima do que o filme conseguiria satisfazer. E, infelizmente, foi o que aconteceu (em certa medida). Gostei do filme. É bom, não chega a ser uma obra-prima. Mas se me perguntarem, sem receio direi que vale a pena assistir, porém… que esteja preparado para um filme de ritmo bem irregular, com altos e baixos, que demora a “engrenar”, mas cujo final arrebatador compensa – aliás, compensa muito – as pequenas imperfeições. O gran finale é tão recompensador e emocionante que o espectador termina de assistir já esquecido do que o desagradou no início.

Antes de mais nada, a sinopse. O filme conta a estória de Andreï Simonovich Filipov, conhecido como “O Maestro”, regente da célebre Orquestra Bolshoi que, durante o governo Brejnev, é coagido a renegar os seus músicos judeus e, negando-se a fazê-lo, vê-se condenado a um destino menor como faxineiro na própria sala de concertos do Bolshoi. Muitos anos mais tarde, surge uma oportunidade de juntar os antigos músicos, reviver e finalizar a execução de um concerto interrompido há mais de três décadas.

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Agora, os detalhes incômodos. O caráter picaresco de algumas cenas, assim como certa histeria em alguns diálogos tornam-se rapidamente cansativos e repetitivos. Os personagens são estereotipados, quase caricatos – o russo beberrão, o judeu pão-duro, o comunista fanático, o cigano oportunista – o que atrapalha na hora de “comprar” a estória. Sobre isso, há ainda o agravante de que, além dos muitos clichês, vários detalhes da trama soam improváveis, incoerentes, quase beirando o inverossímil. Apesar de o espectador perceber desde o início do tom de “brincadeira” que será usado, o humor deslocado, o exagero no caráter farsesco acabam dificultando a suspensão de descrença e, não chegam a impedir, mas atrapalham a imersão no universo da narrativa.

O espectador persistente que segue assistindo, apesar das pequenas falhas, é largamente recompensado nos dois terços finais do filme. Como comentado acima, a estória demora a engrenar, se arrastando durante o primeiro terço e somente ganhando ritmo, densidade e intensidade a partir daí. O filme prossegue num crescendo, culminando numa coda brillante que, assim como o concerto de Tschaikovski, enleva a quem assiste.

E essa mudança significativa deve-se principalmente à presença e à atuação de Mélanie Laurent. Para quem (assim como eu) não conseguiu logo de cara identificar o rosto a que esse nome pertence, basta lembrar-se de Inglourious Basterds. Mélanie é a atriz que personifica Shoshanna Dreyfus / Emmanuelle Mimieux (a proprietária do cinema parisiense), papel pelo qual foi premiada como melhor atriz pela Online Film Critics Society e pela Austin Film Critics Association. Mélanie é Anne-Marie Jacquet, uma violinista francesa, jovem e famosa internacionalmente, convidada a ser solista na execução do concerto de Tschaikovski que a orquestra regida por Filipov irá tocar – Concerto para violino e orquestra, em Ré Maior, op.35 (escute completo aqui). As cenas em que ela aparece são luminosas de uma maneira impossível de não reparar. O talento da atriz transparece, mesmo num personagem não tão complexo quanto Shoshanna. Detalhe interessante: para interpretar Anne-Marie, Mélanie teve aulas durante dois meses para (parecer) saber tocar como uma instrumentista daquele nível e conseguir acompanhar o ritmo do concerto numa cena que dura pouco mais de 12 minutos.

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Contudo, não é apenas Mélanie Laurent que está bem no filme. Todo o elenco tem uma atuação digna de nota. Mesmo estereotipados, os personagens são cativantes e isso deve-se sem dúvida ao talento dos atores. Destaque, obviamente, para os que têm mais tempo em cena, Filipov (Alexei Guskov) e seu amigo Sasha Grosman (Dimitri Nazarov). A interação entre os dois rende boas cenas. Algumas exageradamente burlescas, mas nem por isso desmerecendo a performance da dupla. Mesmo não tendo reconhecido os nomes na lista do elenco, mais dois atores, além de Laurent, eram “figurinhas” conhecidas para mim:

  • Guylène de La Rivière, a empresária de Anne-Marie: interpretada por Miou-Miou, de quem eu me recordo em Germinal e alguns telefilmes dos quais não vou lembrar o nome;
  • e Olivier Morne Duplessis, o diretor do Théâtre du Châtelet: interpretado por François Berléand, que é presença constante nos filmes da série The transporter (Inspetor Tarconi).
  • Finalmente, o concerto. Bem, o concerto é um capítulo à parte. Aliás, o concerto é mais um personagem do filme. É o que move a trama na maior parte da estória. Mesmo sendo ouvido apenas na sequência final, é tão presente durante todo o filme que tudo que o espectador quer é conseguir ouvi-lo integralmente. E quase consegue. Antes de assistir ao filme, procurei a música por pura curiosidade. Afinal, apesar de ter boa memória musical, tenho dificuldade em juntar o som ao nome das músicas, principalmente as clássicas. Queria saber se conhecia o tal concerto. E sim, eu conhecia. Escutei o suficiente apenas para reconhecer o tema. Reparei que durava cerca de 35min. e me perguntei como o diretor o encaixaria no filme sem mutilar demais a obra. E o resultado foi muito além do imaginado. Os prêmios recebidos pelo som do filme são mais que merecidos. A mixagem ficou excepcional. Mesmo “cortando” praticamente todo o segundo movimento do concerto, o produto final guardou toda a força e a potência da melodia. Achei bastante corajosa a opção do diretor de deixar a música tocando ininterruptamente durante os quase 13 minutos da cena do concerto. Conseguiu manter a atenção do público alternando a execução da orquestra com cenas do passado e do futuro dos músicos, além de uma narração em off esclarecendo alguns “mistérios” da estória. Admito, costumo não gostar muito de peças compostas para violino, mas esse concerto é fenomenal. Aliás, é difícil achar adjetivos à altura. É tão arrebatador que o impulso de quem assiste, ao seu término, é levantar do sofá e aplaudir junto com a plateia do teatro.

    Se você, leitor, chegou até aqui tendo a impressão de que eu comecei não gostando do filme e terminei empolgada o suficiente para “voltar a fita” a assistir novamente os últimos 20 minutos, foi exatamente isso que aconteceu. Os primeiros 40 minutos foram abaixo da expectativa. Porém, dali em diante o filme foi ficando cada vez mais cativante, me ganhando definitivamente na cena em que Anne-Marie e Filipov conversam. Quem quer que tenha qualquer relação com música vai se deliciar com o diálogo entre eles.

    Enfim… se você se interessou, assista, persista, encante-se e não deixe de aplaudir no final.

    https://www.youtube.com/watch?v=tkMdBggI4Ws

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