You can’t bluff someone who’s not paying attention

meteorologia: chuva, chuva, chuva
pecado da gula: pizza
teor alcoolico: 1 itaipava, 1 1906
audio: jurassicast #19
video: criminal minds

House of games (Jogo de emoções)
Direção e roteiro: David Mamet

Sabe aqueles filmes a que a gente assiste por acaso na tv? Zapeando, paramos nele – pois está no início – começamos a assistir e não conseguimos desgrudar os olhos da telinha até o filme acabar. Com este, foi exatamente o que aconteceu comigo. Assisti-o e quase instantaneamente, a qualidade do texto de Mamet me conquistou. E a vontade de revê-lo perseguiu-me dali em diante. Depois, durante anos, procurei-o em locadoras e lojas, sem sucesso. Ainda hoje, não há edição nacional do DVD. O que, na minha humilde opinião, é uma pena.

Nem posso dizer que sempre paro para assistir quando o vejo passando em algum canal. Revi-o apenas uma ou duas vezes, creio, pois raramente faz parte da grade de programação – tanto da tv aberta quanto da tv a cabo – o que também é uma pena. Mas nem tudo está perdido. Sábado passado, navegando no site do @netflix, lá estava ele na lista de sugestões. Não pensei duas vezes. Larguei o que estava fazendo e parei para assistir.

Ao revê-lo, tive receio de que meu encantamento anterior não se confirmasse. Que, depois de aprender um pouco mais sobre cinema, ele já não se me apresentaria tão inteligente e tão envolvente quanto da primeira vez. Lêdo engano. Não só o respeito pela obra se manteve, como tive a satisfação de perceber detalhes, antes não notados, que deixaram o filme ainda melhor aos meus olhos. Logicamente que, por ser o primeiro dirigido por Mamet (mesmo não sendo seu primeiro roteiro), alguns pormenores poderiam ter sido melhor trabalhados – como a teatralidade excessiva de alguns diálogos. Mas nada que desabone o todo.

Reconheço que este é mais um daqueles que eu gosto demais e que pouca gente conhece ou sequer ouviu falar. Na verdade, até hoje, apenas colegas cinéfilos – apreciadores (ou não) da obra de Mamet – afirmaram conhecê-lo. O que, reitero, na minha humilde opinião, é uma pena. Mas chega de sentir pena dos que ainda não tiveram oportunidade de assisti-lo. Vamos aos motivos pelos quais esse filme faz parte daquela listinha de obras que eu não me canso de ver.

Antes de mais nada, uma ligeira sinopse do filme. A psiquiatra Margaret Ford (Lindsay Crouse) é autora de um livro de sucesso que versa sobre comportamento compulsivo. Um paciente seu, Billy Hanh (Steven Goldstein), jogador compulsivo, está endividado e pede sua ajuda. Ao tentar auxiliá-lo, conhece Mike (Joe Mantegna), a quem Billy deve. Conhece também o submundo do jogo e fica fascinada.
Basicamente, é isso. Abstenho-me de contar qualquer outra coisa para não incorrer involuntariamente no equívoco de dar algum spoiler. Contudo, como em outros posts, analisar certos aspectos do filme é impraticável sem citar certos detalhes. Portanto, os spoiler serão indicados à medida que forem necessários. Fica a critério do leitor, “pular” ou não o trecho correspondente.

Para aqueles que acham que o advento do “plot twist” – aquela reviravolta perto do final do filme que faz virar de ponta cabeça tudo a que assistimos até então – foi “invenção” de M.Night Shyamalan (com o ótimo “The sixth sense”), devo informá-los que não é bem assim. Mamet já fazia isso muitíssimo bem dez anos antes – certamente, alguns outros roteiristas antes dele também. E, para obter esse resultado, sem que o público “desconfie” do que está por vir, é mandatório que o roteiro seja muito bem escrito. Que não existam pontas soltas, nem furos, nem nada que indique que o que vemos não é o que parece ser. E ao mesmo tempo, revendo o filme, tudo deve ser coerente e estar de acordo com “aquela” informação privilegiada que agora possuímos.

(Spoilers à frente)
E neste filme, Mamet consegue isso de modo quase perfeito. Aproveitando-se do tema abordado – a habilidade em aplicar golpes –, manipula o público de modo a fazê-lo sentir-se exatamente como a personagem. No momento em que ela percebe o que houve, o espectador também se dá conta de que foi ludibriado durante todo o tempo. Que tudo não passou de um jogo de aparências. Que até aquele momento, viu, ouviu, enfim, percebeu apenas o que o diretor/roteirista quis e, assim sendo, foi vítima ele também de um golpe bem engendrado. Mas, afinal, o que é o cinema senão mostrar ao público o que o roteirista/diretor quer que seja visto? No caso deste filme, isso é levado ao extremo e a experiência cinematográfica revela-se tão cativante quanto memorável.
(Fim do spoiler)

E por que essa técnica funciona? Basicamente porque confiamos no roteirista/diretor e espontaneamente acreditamos na estória que ele quer nos contar. Esse contrato implícito entre as partes envolvidas é explicado de forma bastante didática por Mike a Margareth:

“The basic idea is this. It’s called a confidence game. Why? Because you give me your confidence? No. Because I give you mine.”

Para os que acreditam que diálogos inteligentes são sinônimo de Quentin Tarantino (e vice-versa), também devo avisá-los de que não é bem isso. É lógico que Tarantino escreve ótimos diálogos, domina como poucos a técnica de utilizá-los como elemento de suspense. Mas não, diálogos inteligentes não são exclusividade dele. Antes dele, dois nomes me vêm à mente: Ernest Lehman e David Mamet. Lehman foi o responsável pelo roteiro e, consequentemente, pelos diálogos de “Quem tem medo de Virginia Woolf?” (dirigido por Mike Nichols) – excepcionais, apesar de pouco verossímeis em alguns momentos – e também de “North by northwest” (dirigido por Alfred Hitchcock).

Em comum entre esses artesãos da “fala”, a capacidade de criar frases ao mesmo tempo inteligentes, sagazes, irônicas, perspicazes e, inúmeras vezes, dúbias. Mas dúbias, não no sentido de falsas, mas no sentido de serem tão bem construídas que seu sentido depende totalmente do conhecimento que temos da situação em que são ditas.
(Spoilers à frente)
E, num filme em que a estória gira ao redor da ideia de que nem tudo é o que parece, essa habilidade é essencial para atingir o resultado desejado – envolver e “enganar” o espectador.
(Fim do spoiler)
Além disso, o subtexto do diálogo, as entrelinhas, por muitas vezes são mais explicativos e importantes do que está sendo dito. A entonação, o modo como certas palavras são pronunciadas, as pausas, o ritmo, os suspiros, tudo contribui para que o significado vá muito além das palavras. E, convenhamos, quem gosta de ler/escrever (como eu) não consegue se furtar de gostar demais de filmes escritos assim.

Já assisti a outros filmes dirigidos e/ou roteirizados por ele, porém este continua sendo meu favorito. Nem tanto por achá-lo melhor que os demais (e eu acho), mas principalmente por me apresentar a algo novo, diferenciado. Por me fazer pensar nos significados que extrapolam a própria narrativa. Posso afirmar que contibuiu sobremaneira para aumentar meu interesse na arte do cinema. Interesse que deixou de ser apenas de me divertir e passar o tempo assistindo bons filmes, e passou a ser de entender a “feitura” do filme. O que, como e por quê foi feito e o que significa algo ter sido feito deste modo e não daquele. Entender por que alguns filmes são tão cativantes enquanto outros são nem sequer lembrados. E, não só entender, mas conseguir colocar em palavras por que este filme me agrada tanto é algo que não tem preço. #mastercardFeelings

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