Amour

Amour (2012) – Amor
roteiro e direção: Michael Haneke
4 out of 5 stars

Admiro a capacidade de alguns diretores que conseguem filmar estórias totalmente diversas e ainda assim imprimirem sua marca pessoal ao filme. Haneke é um deles. The piano teacher – que preciso terminar de assistir, Caché, Funny Games – meu predileto – e este Amour contam estórias bem diferentes e ainda assim não há como não perceber “o dedo” do diretor/roteirista em cada um deles. A crueza com que os fatos são contados, como os eventos são mostrados, como os personagens são desenvolvidos sempre causa um incômodo ao público, tornando-se uma marca registrada. Não há concessões nem gentilezas. Se a ideia do espectador ao assistir um filme, em um dia qualquer, é mergulhar num mundo de fantasia e fugir da realidade durante 120 minutos, os filmes de Haneke não são boa opção.

amour - poster

Sinopse:
Georges e Anne são octogenários e aposentados professores de música, casados há muitos anos e que envelheceram juntos. Durante um café da manhã, Anne sofre um derrame e o laço entre o casal é colocado à prova com a doença da mulher.
(fonte: Guia Folha)

amourAssim que Anne (Emmanuelle Riva) tem o derrame e Georges (Jean-Louis Trintignant) assume os cuidados com ela e com a casa, veio-me à mente outro filme com um casal idoso no centro da estória – Iris, com Judi Dench e Jim Broadbent (post aqui). A temática é similar, contudo os filmes são bem diferentes. Iris é um filme de roteiro fraco e direção insossa que é salvo pela ótima atuação do elenco. Em Amour, o elenco também está excepcional, mas o roteiro conciso e a direção firme de Haneke fazem dele uma experiência cinematográfica totalmente diversa.

Enquanto em Iris, o foco é na frustração da personagem vivida por Dench ao perder o domínio das palavras e ficar impossilitada de fazer o que mais lhe importa – escrever; em Amour, a atenção do espectador é voltada no cotidiano do casal depois do evento que debilitou Anne. Haneke faz o espectador acompanhar o dia-a-dia deles, Georges assumindo os cuidados com a casa e com Anne, a piora progressiva das condições de saúde dela, o desgaste do relacionamento entre eles e com a família. Contudo, não se dá ênfase apenas aos problemas. Há momentos de humor aparentemente involuntário, tais como Anne aprendendo a usar a cadeira motorizada ou a conversa entre eles sobre a ida de Georges a um enterro.

Anne: Qu’est-ce que tu dirais si personne ne venait à ton enterrement?
Georges: Rien, probablement. (*)

Tudo é mostrado com elegância, mas sem licenças poéticas. Sem eufemismos desnecessários. Sem condescendência. Certamente por isso, o filme é tão “duro” de assistir. A ausência de trilha sonora, os cenários e os figurinos em cores neutras são fatores que ficam o tempo todo lembrando o espectador que aquilo é real. Real demais. Honesto demais. Angustiante demais. Às vezes, quase brutal demais. É um filme exigente. Ao terminar de assistir, fica a impressão de ter passado horas acompanhando a vida daquele casal. Admito, saí do cinema cansada, tensa e sem saber ao certo se tinha gostado ou não do filme.
E eu ainda não sei.


(*) O que você diria se ninguém viesse ao seu enterro?
Nada, provavelmente.

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