2 Coelhos

2 Coelhos (2012)
roteiro e direção: Afonso Poyart
3 out of 5 stars

Sinopse:
Edgar (Fernando Alves Pinto) encontra-se na mesma situação que a maioria dos brasileiros: espremido entre a criminalidade, que age impunemente, e a maioria do poder público, que só age com o auxilio da corrupção.
Cansado de ser vítima desta situação, ele resolve fazer justiça com as próprias mãos e elabora um plano que colocará os criminosos em rota de colisão com políticos gananciosos.
(fonte: filmow)

2 coelhos

Apesar de Edgar estar realmente na situação descrita no primeiro parágrafo da sinopse, sua motivação não é bem aquela descrita no segundo parágrafo. Na verdade, sua intenção é tirar proveito da impunidade e da corrupção em benefício próprio, ou seja, aproveitar-se das brechas na justiça e da ganância de políticos corruptos a fim de garantir um bom pé de meia para ele e a namorada, Júlia (Alessandra Negrini). O que, no meu entender, faz muito mais sentido do que pensar em Edgar como um “vigilante” ou um “Robin Hood” que conclui que fazer justiça por conta própria irá efetivamente mudar de algum modo a situação atual do país.

Desde Tropa de Elite que o público percebeu que cinema nacional não se resume apenas a filmes-cabeça ou comédias made in Globo Filmes. Contudo, ainda assim há poucos que saem dessa linha. Este, diferente da maioria, tem nitidamente um tom de videoclipe. A mistura de cenas de ação, quadrinhos, videogames com o cenário cinzento de São Paulo deu um resultado muito bom, que prende a atenção do espectador do início ao fim. Tem-se a impressão que Poyart juntou todas as ideias que tinha para fazer um filme mais um monte de referências pop, colocou um saco, chacoalhou e depois usou o resultado da mistura como roteiro. Certamente por isso, em alguns momentos, há um certo exagero tanto nas referências quanto na utilização de efeitos visuais gráficos.

É irritante ouvir/ler pessoas comentando sobre o filme e soltando o eterno clichê: “É bom, mesmo sendo nacional.” . Que isso?! Há bons e ruins de qualquer nacionalidade. Essa falácia de que só o que vem de fora, a priori, tem qualidade já deveria ter saído da cabeça do público há tempos. Se há algo a ser dito, a ser destacado neste filme é que, mesmo sendo nacional, a estética dele é diferente de praticamente todos os filmes brasileiros a que assisti até hoje. E lembra filme americano, sim. Aliás, lembra muito o estilo de um diretor especificamente – Guy Ritchie. A montagem veloz – às vezes, com cortes rápidos demais – remete imediatamente aos filmes de ação feitos em Hollywood. E, apesar de eu particularmente preferir planos mais longos, a quantidade de cortes casa muito bem com o ritmo da narrativa.

2 coelhosA estória é narrada, em off, pelo protagonista. Ágil e descontinuada, com idas e voltas no tempo, é essa (des)estrutura que segura o espectador na poltrona. É exatamente assim que alguém conta uma estória – vai contando, de repente lembra-se de um detalhe, volta, conta o que ficou faltando, apresenta um personagem que vai ser importante só mais tarde na estória, omite alguns detalhes sabendo que vão gerar suspense. A trama está bem amarrada, exceto por um ou outro “nó” que não chega a ser atado ao fim do filme, o que não chega a prejudicar o resultado final.

O elenco está bem, com uma ou outra ressalva. Fernando Alves Pinto encarna perfeitamente o cara que sabe o que quer e como conseguir. Até sua dicção falha malemolente casou bem com o personagem. Alessandra Negrini, sempre linda, consegue ir de moça apaixonada a femme fatale numa boa, apesar de em alguns momentos parecer estar atuando no automático. Caco Ciocler é o elo fraco. Além da motivação de seu personagem não ficar muito clara, sua atuação – no melhor estilo ‘cigano Igor’ – deixa bastante a desejar. Para compensar, os “bad guys” – Deputado Jader Kerteis (Roberto Marchese) e Maicon (Marat Descartes) – entregam performances bastante críveis, mesmo com o exagero de canastrice em algumas cenas.

Perdoados os escessos e falhas de um diretor principiante, é um filme que vai conquistando o público à medida que avança. Enfim, é difícil terminar de assistir e não pensar (às vezes em voz alta): “Yes, we can! Quem disse que brasileiro não pode fazer filme de ação?”.

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