O lobo atrás da porta

O lobo atrás da porta (2013)
roteiro e direção: Fernando Coimbra
4 out of 5 stars

(crítica publicada originalmente no Vórtex Cultural, em 12/05/2014)

Sylvia (Fabiula Nascimento) chega à escolinha para buscar a filha, Clara (Isabelle Ribas) e, após ser avisada pela professora que alguém já havia levado a menina, chega à conclusão de que a menina foi sequestrada. Na delegacia, tanto Sylvia quanto a professora prestam depoimento, enquanto aguardam a chegada de Bernardo (Milhem Cortaz), marido de Sylvia. Ao chegar, Bernardo inclui mais um elemento na história – Rosa (Leandra Leal), uma “conhecida” que supostamente estaria fazendo uma brincadeira com ele ao sequestrar sua filha.

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E o que inicialmente parece ser um filme policial torna-se um drama com nuances rodriguianas. Os esqueletos vão, aos poucos, sendo retirados do armário à medida que tomamos conhecimento do triângulo amoroso envolvendo Sylvia, Bernardo e Rosa. Ao espectador, revela-se apenas a versão dada pelos personagens, a cada conversa com o delegado (Juliano Cazarré). E a cada conversa, mais detalhes são adicionados. E, à exemplo da Igreja da Sagrada Família, de Gaudí, o panorama completo é construído aos poucos, à medida que a trama avança. Como uma casa a que se vai adicionando vários “puxadinhos” de acordo com a necessidade.

Interessante notar que a fotografia do filme reflete essa compartimentalização. O uso frequente de planos-detalhe faz lembrar que o que é visto é apenas parte do todo e, sendo assim, pode não refletir totalmente a realidade. Assim como reafirma a importância de dar atenção aos detalhes, às sutilezas, às entrelinhas. Instiga o espectador a se questionar sobre o que está acontecendo no espaço fora de quadro de forma bastante inteligente. Os enquadramentos fechados, tanto os planos-detalhe quanto os closes, são claustrofóbicos, dão uma sensação de confinamento que reflete o estado de espírito dos personagens enquanto depoem. É curioso reparar como em alguns momentos a câmera parece esperar que os personagens se movam para dentro do quadro.

o lobo atras da porta

Acompanhando os depoimentos de cada um dos personagens, a linha temporal vai se alternando entre flashbacks do que está sendo contado e o presente. E os flashbacks, assim como os depoimentos, ficam mais longos e mais detalhados, revelando a complexidade tanto dos personagens quanto do relacionamento entre eles. Os três envolvidos deixam de ser estereótipos dum triângulo “clássico” e começam a exibir outras facetas, passando da bi para a tridimensionalidade com bastante fluidez. E a cada novo evento adicionado, a cada traço de caráter que se descobre, o espectador é obrigado a repensar sua opinião a respeito de toda a situação. Os personagens vão de ‘mocinho’ a ‘bandido’ e de volta a ‘mocinho’ à medida os conhecemos melhor. Ninguém é 100% inocente ou 100% culpado. E não se pode confiar totalmente no que dizem.

E esse roteiro eficiente não conseguiria ser tão impactante não fosse o elenco em plena sintonia. Fabiula Nascimento e Milhem Cortaz estão muito bem, com atuações na medida para seus personagens. Mas o destaque mesmo é Leandra Leal, que conseguiu fazer Rosa oscilar entre ingenuidade e sensualidade, entre olhares enigmáticos e suplicantes, entre doçura e ressentimento, com uma sutileza que não deixa espaço para o espectador duvidar de suas ações – mesmo as mais extremas.

Considerando que este é o primeiro filme de Fernando Coimbra, resta ao público torcer para que não perca a mão e continue levando às telas tramas com a mesma qualidade.

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