Godzilla (2014)

Godzilla (2014)
roteiro: Max Borenstein, Dave Callaham
direção: Gareth Edwards
3.7 out of 5 stars

(crítica publicada originalmente no Vórtex Cultural, em 15/05/2014)

Joe Brody (Bryan Cranston) é o engenheiro responsável por uma usina nuclear no Japão. Cria seu filho Ford sozinho, após perder sua esposa, Sandra (Juliette Binoche) num acidente que leva ao fechamento do local e ao isolamento de todo o entorno. Quinze anos depois, Joe ainda acredita que o que houve não foi um acidente e Ford (Aaron Taylor-Johnson), já adulto, casado e com um filho, acha que seu pai está obcecado com essa ideia por não aceitar a perda da esposa. Os eventos que se seguem demonstram que Joe não estava enganado.

godzilla

Filmes de super-heróis, de monstros, de catástrofes são autoexplicativos. E Godzilla cabe perfeitamente nas duas últimas categorias. Salvo alguns detalhes que diferenciam a trama, mesmo que apenas ligeiramente, filmes de Godzilla obrigatoriamente tem o lagarto gigante em algum momento invadindo cidades e causando destruição. E este não foge à regra, porém a história é conduzida de modo a não ofender a inteligência do espectador. Há clichês? Lógico. Aliás, como escapar deles num filme do gênero? Há justificativas científicas meio capengas que não resistiriam a um crivo mais exigente? Sem dúvida. Mas, convenhamos, num filme de monstro, quem em sã consciência está preocupado com a legitimidade das explicações? Quem vai ao cinema para rever Gojira, quer basicamente apenas duas coisas: um monstro que seja grandioso o bastante para meter muito, muito medo, mesmo que estejamos seguros na poltrona; e muita destruição causada pelo monstro. E se houver uma luta entre monstrengos, ainda melhor.

E este filme entrega isso e muito mais. Uma boa solução do roteiro foi optar por não incluir um casalzinho romântico ou uma família em perigo para aumentar a carga dramática (e melosa) da trama. Os dramas humanos ocorrem, mas não são o foco da história. Não há a intenção de criar tensão desnecessária a ponto de fazer o espectador chorar pelos personagens, o que enfraqueceria bastante a narrativa. Afinal, é um filme de monstros, oras! E não um romance água-com-açúcar que acontece enquanto uma catástrofe atinge a cidade.

Outra boa sacada foi não apresentar o monstro no início e passar o restante do filme mostrando a humanidade – leia-se “os americanos” – perseguindo-o e tentando matá-lo. Seria lugar-comum demais. Além disso, optou-se por não fazer com que o objetivo do monstro fosse invadir e destruir cidades. O que ocorre é que Godzilla e os outros monstros passam pelas cidades e, devido ao seu tamanho, saem pisando em veículos e pessoas, além de destruir construções. Do mesmo modo que nós, humanos, fazemos ao passear num campo, por exemplo. Não saímos de casa com o intuito de aniquilar formigas ou amassar gramíneas. Apenas acontece enquanto andamos.

Untitled

Bebendo nitidamente da fonte de Spielberg, em Jaws, a aparição “de corpo inteiro” de Godzilla demora a ocorrer e é precedida de várias cenas em que o vemos apenas de relance ou envolto por névoa. E quando finalmente ele aparece, valeu toda a espera. Difícil evitar uma exclamação de admiração pela grandiosidade do monstro. Não dá para não pensar “Finalmente, um lagartão bem feito!”. Não apenas bem feito digitalmente, mas fiel ao Gojira original japonês, sem aquele ar de T-Rex que tinha o de Emerich.

Se há algo que chama atenção – além do monstro, lógico – é o som do filme. Não apenas a trilha sonora de Alexandre Desplat, que lembra um pouco John Williams em alguns momentos; mas também o design de som, que evita pontuar todas as cenas com a trilha e faz um ótimo uso do silêncio – recurso dramático infelizmente subutilizado, principalmente em blockbusters. Consegue assim, criar a tensão necessária para amplificar a aparição triunfal de Godzilla.

Não resta dúvida que para ser melhor do que o filme de 1998, com Matthew Broderick, não precisa muito. Mas este filme vai além. Consegue fazer o público esquecer que aquela versão existiu e tornar esta versão “O” filme de Godzilla.

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